A Netflix vai exibir a série de animação russa em mais de 100 países, incluindo Portugal. A plataforma adquiriu duas temporadas de «Masha e o Urso» e renovou o contrato relativo aos direitos das temporadas anteriores e dos spin-offs. Esta situação provocou uma forte reação negativa online, incluindo a assinatura de uma carta por mais de 50 deputados do Reino Unido a pedir o fim da sua transmissão. Os nossos aliados levantaram preocupações credíveis sobre propaganda estatal. Mas, afinal, quais são essas preocupações? A seguir, explicamos por que razão este conteúdo infantil, aparentemente inofensivo, pode constituir uma ameaça real.
A série de animação baseia-se na versão russa do conto de fadas «Caracóis Dourados e os Três Ursos».
O enredo gira em torno de uma menina que se perde na floresta e, de repente, encontra uma cabana onde vive um urso. Quando o urso descobre a menina na sua casa, fá-la sua refém e não a deixa sair. A menina foge usando um estratagema.
O conto tem como objetivo ensinar a usar a criatividade para sair de uma situação complicada. A série de animação, por sua vez, incita as crianças a agirem de forma descontrolada, normaliza a militarização e promove a visão russa do mundo.
Imagem: captura de ecrã de uma série animada. Todas as imagens de personagens neste material são usadas no contexto de uma análise jornalística e são objeto de discussão.
Travessuras descontroladas e impunidade
О público russo gosta de comparar «Masha e o Urso» com «Tom e Jerry», como se as travessuras da protagonista não fossem de forma alguma piores do que as travessuras do gato desobediente.
No entanto, existe uma diferença substancial: em «Tom e Jerry», tal como noutras obras infantis bem elaboradas, há sempre um fator de controlo: os pais ou outros adultos.
Já a Masha demonstra que tudo lhe é permitido, sem quaisquer consequências. Os pais da Masha nem sequer aparecem na história. Ela causa confusão, destrói bens e ofende os outros animais da floresta, sem, no entanto, ser punida pelas suas asneiras.
«O que a criança vê no desenho animado sobre a Masha é que não é preciso respeitar a propriedade alheia: a Masha está constantemente a pegar nas coisas dos outros sem permissão, a destruir e a partir tudo à sua volta. Ela não reage às palavras “pára” e “não” o Urso, todas as vezes, levanta os braços em sinal de impotência e fica a arcar com as consequências do comportamento da Masha. A criança não desenvolve o conceito de justiça; em vez disso, normaliza-se a ideia de que tudo é permitido. No desenho animado, todos as personagens são animais, exceto a Masha que é humana; ela é a única que fala, as restantes personagens não falam. A Masha fala, ri, dá ordens, ou afirma algo. Ela nunca sugere, não pergunta, não dialoga», resume a diretora do Centro para a Dignidade da Criança da Universidade Católica Ucraniana, Khrystyna Shabat, num artigo para a «Osvitoria».
O comportamento de uma criança militarizada
Se a ideia de que as travessuras ficam impunes é um discurso indesejável, compreensível para todos os pais, aqui estamos perante uma influência menos óbvia.
Para a Rússia, é típico associar uma narrativa militar a todas as esferas da vida. Um dos legados mais fortes da União Soviética, na Rússia, tem sido o facto do Estado tratar a educação das crianças como um projeto de criação de soldados, uma política que as autoridades russas aplicam nos territórios ucranianos ocupados.
É isso que a Masha também faz. Por exemplo, num dos episódios, em que um coelho se interessa por uma cenoura da horta, a Masha assume o papel de uma guarda de fronteira que patrulha a fronteira e se esforça ao máximo para a proteger do coelho estrangeiro.
Há muitos exemplos desse tipo de resolução de problemas através de uma visão autoritária ao longo de mais de cem episódios da série.
«A Masha é impetuosa, até um pouco desagradável, mas, ao mesmo tempo, corajosa. Ela enfrenta adversários que a superam em peso. Não seria exagero considerá-la semelhante a Putin», diz Anthony Glees, professor emérito da Universidade de Buckingham, num comentário ao The Times.
A glorificacão da ideia do poder militar da Rússia
A par do comportamento militarizado da protagonista, a obra recorre regularmente a mensagens propagandísticas bem conhecidas sobre a suposta invencibilidade do exército russo. Isto assenta em grande parte na narrativa propagandística do Kremlin sobre o papel do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial como um feito nacional russo.
De vez em quando, é possível ver a Masha a usar peças de vestuário militares, como um gorro de tanque ou um boné de oficial do serviço de repressão soviético, o NKVD. Esses detalhes surgem de forma discreta, mas sistemática, criando nas crianças a ideia de que os acessórios militares são a norma. A narrativa «os russos não desistem» percorre também toda a série como um fio condutor.
A imagem da Rússia como protetora
Desde o colapso da URSS, a Rússia tem vindo a tentar dominar a Europa de Leste e parte da Ásia, assumindo o papel de defensora. A influência política da Rússia sobre os Estados vizinhos assenta na chantagem com o gás e na intimidação, alegando que, sem um aliado nuclear tão poderoso (recordamos as referências ao poderio militar), os vizinhos não conseguiriam, de forma alguma, fazer face ao Ocidente demoníaco.
O urso desta série é grande e vagaroso, acolhendo a criança para a proteger. Cria uma sensação de segurança, como se, aconteça o que acontecer, o urso russo pudesse resolver qualquer problema. O paralelo é fácil de ver para qualquer observador não russo que tenha vivido o domínio soviético. Por exemplo, o editor e especialista em media estónio Priit Hõbemägi escreveu em 2015 que se sentia dividido porque não conseguia afastar o pensamento de que «Masha e o Urso são, na verdade, representantes do “poder brando” da Rússia, uma forma híbrida de desvio ideológico que se infiltra sem ser notada, “pequenos homens verdes” sem estrelas de cinco pontas nem bandeiras vermelhas».
Hõbemägi traça um paralelo com a história dos animadores soviéticos que, discretamente, inseriam slogans de propaganda nos desenhos animados, como «vamos viver em paz», em «O Gato Leopoldo». Esta mensagem sugere que a opressão normalizada da União Soviética é pacífica e não violenta, e que desafiá-la é um ato que impede a paz.
O problema com a «grande» cultura russa
A série de desenhos-animados procura criar nas futuras gerações de todo o mundo uma visão romantizada da cultura russa. Os autores utilizam ativamente símbolos reconhecíveis associados à Rússia: o kokoshnik, a balalaika, o samovar, entre outros.
Em circunstâncias normais, esta é uma função comum das obras de arte. Sem contexto, celebrar e partilhar artefactos culturais é saudável. No entanto, a questão não é saber se um país pode promover a sua própria cultura. A questão é saber se a Rússia, um país construído sobre a colonização e a destruição de outros e a apropriação das suas conquistas, deve ocupar um lugar na comunidade cultural global enquanto leva a cabo uma guerra e políticas que visam destruir e saquear a Ucrânia. Perante estas circunstâncias, a promoção de «Masha e o Urso» serve sobretudo para distrair os pais dos crimes atrozes da Rússia de hoje, ao mesmo tempo que prepara as crianças para ignorarem os crimes atrozes de amanhã.